Uma jovem, de 29 anos, foi morta a tiros pelo ex-namorado, um homem de 40 anos, em um escritório de contabilidade

Wagner Souza/AAN

Uma jovem, de 29 anos, foi morta a tiros pelo ex-namorado, um homem de 40 anos, em um escritório de contabilidade

O ano mal começou e bastaram menos de 72 horas para que Campinas registrasse o primeiro caso de feminicídio na cidade. Na noite da última sexta-feira, Camilla Rodrigues Barros, de 29 anos, foi morta a tiros pelo ex-namorado, um homem de 40 anos, em um escritório de contabilidade no Jardim Chapadão. O caso ocorreu na Rua Celso Egídio Sousa Santos, por volta de 18h. Segundo a Polícia Militar (PM), Luiz Pereira da Silva invadiu o local onde a vítima trabalhava e efetuou três disparos de arma de fogo contra ela. Em seguida, ele cometeu suicídio efetuando dois tiros contra o próprio corpo.

Camilla Rodrigues Barros, de 29 anos

O resgate chegou a encaminhar o atirador ainda com vida ao Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mas ele não resistiu aos ferimentos. No local do crime, foi apreendido um revólver calibre 38 com numeração raspada. Os militares que atenderam a ocorrência apuraram por meio de testemunhas que o atirador era ex-namorado da jovem. O casal estava separado desde setembro do ano passado, mas ele não aceitava o fim do relacionamento. Os dois teriam sido noivos, segundo a Polícia Militar.

Ainda de acordo com a PM, Silva atuava como motorista de transporte por aplicativo. Ele estava desempregado e usava a plataforma para conseguir obter uma fonte de renda diária. O atirador trabalhava como vigilante antes de ser demitido. O caso foi registrado no plantão da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). A vítima deixou um filho pequeno.

Tragédias

Apesar de absurda, tragédias como essa acabaram se tornando normais ao longo do ano passado em Campinas. Ao todo, o município computou oito casos de feminicídio em 2019. Foram duas mortes no mês de dezembro; outras duas em maio; e um crime identificado nos meses de janeiro, fevereiro, março e outubro.

Em 2015, o feminicídio passou a fazer parte do ordenamento jurídico brasileiro por meio da sanção da lei 13.104, que qualifica o crime como: casos de mulheres mortas por razões da condição de sexo feminino (ou seja, no contexto de violência doméstica e familiar, ou de menosprezo e discriminação à condição de mulher). A pena para este tipo de crime, prevista no Código Penal, é de 12 a 30 anos de reclusão.

Entretanto, segundo José Henrique Ventura, diretor do Departamento de Polícia Judiciária Interior 2 (Deinter-2), mesmo após quatro anos da implementação da lei, as razões que levam ao crime ainda são bastante subnotificadas. Segundo ele, muitas mulheres, que sofrem ameaças físicas constantes, não denunciam a conduta do agressor. “A maioria dos crimes de feminicídio acontecesse hoje sem que a polícia tenha conhecimento de qualquer tipo de desavença antiga entre o agressor e a vítima, porque a denúncia não chega até a gente”, comentou.

No Brasil, a cada 15 segundos, duas mulheres são agredidas fisicamente. O País está em quinto lugar entre os que mais praticam violência contra mulher em todo o mundo. No entanto, segundo uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 52% das mulheres que sofrem violência no Brasil não reportam a agressão para as autoridades. O medo e a falta de estrutura no atendimento são os principais motivos para a desistência da denúncia.

SAIBA MAIS – CASOS EM CAMPINAS EM 2019

4 de janeiro: Milena Optimara Soares Cardenas, de 13 anos, foi morta com um tiro na perna no Jardim Flamboyant, pelo namorado de 17 anos. Os adolescentes moravam sozinhos em uma casa do bairro. A vítima chegou a ser socorrida ao Hospital Municipal Doutor Mário Gatti, mas morreu durante a cirurgia. O namorado da garota confessou a autoria do disparo depois de ser enquadrado pelos policias.

27 de fevereiro: A comerciante Nice Romualdo Vieira, de 51 anos, foi morta no local de trabalho, no Parque Vista Alegre. O ex-namorado, Moacir Zanella, de 53 anos, foi ao estabelecimento, fechou as portas e ateou fogo. O autor do crime foi atingido pelas chamas, precisou ser socorrido em estado grave e levado para o Hospital PUC-Campinas. Ele morreu dias depois em razão das complicações. Segundo a Polícia Militar, ele não aceitava o término da relação.

12 de março: Fátima Aparecida Bertoline, de 40 anos, morreu após passar cinco dias internada na Santa Casa de Campinas. Ela teve 80% do corpo queimado pelo namorado Sandro Joel do Nascimento, de 40 anos, que foi preso próximo ao crime. O caso ocorreu em um imóvel abandonado ocupado pelos dois na Avenida Barão de Itapura.

11 de maio: Thaís Fernanda Ribeiro, de 21 anos, morreu baleada com 11 tiros pelo ex-namorado, de 23 anos, em uma área de ocupação, na região do Techno Park, nas proximidades do CDHU San Martin. O ex-companheiro dela não aceitava o fim do relacionamento. O homem fugiu logo após cometer o crime e foi preso em Santo André (SP).

21 de maio: Sabrina Braz Barbosa, de 28 anos, foi morta a tiros na Avenida Celso Silveira Rezende, na região do São Bernardo, por um ex-namorado.

29 de outubro: A esteticista Ana Mahas Zaher, de 38 anos, foi morta a tiros pelo namorado, de 31 anos, em um condomínio de luxo no bairro das Palmeiras. O homem tentou se matar na sequência, dando um tiro no próprio peito, mas acertou na região do ombro. Ele foi socorrido pelo Resgate e encaminhado ao Hospital de Clínicas da Unicamp. Ele teve alta e foi preso.

13 de dezembro: Carla Vanessa Agostinis Vieira, de 30 anos, foi morta com golpes de tesoura no bairro Jardim Ouro Preto, na região do distrito do Ouro Verde. O caso foi registrado como feminicídio. Segundo a Polícia Militar, o caso ocorreu na Rua Maria Celestina dos Santos e o namorado da vitima, que está foragido, é até hoje o principal suspeito de assassiná-la.

14 de dezembro: Márcia Cristina Moreira, de 31 anos, foi morta pelo ex-marido com golpes de faca no distrito de Sousas. O crime aconteceu depois que o homem foi até casa da vítima durante a madrugada para conversar. Ele queria reatar o casamento, mas teve a sugestão negada por ela. Márcia foi morta logo na sequência. Após o crime, o ex-companheiro se entregou para a polícia.

Escrito por:

Henrique Hein

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