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As marquises da região central de Campinas servem de abrigo a centenas de moradores em situação de rua durante as madrugadas geladas

Matheus Pereira/Especial para a AAN

As marquises da região central de Campinas servem de abrigo a centenas de moradores em situação de rua durante as madrugadas geladas

O frio intenso registrado em Campinas desde o último sábado tem ampliado de forma cruel o sofrimento de centenas de moradores em situação de rua. Grupos de homens e mulheres de alta vulnerabilidade social são obrigados a atravessar as noites frias nas calçadas ou sob marquises de prédios, muitas sem vezes sem proteção e pouco agasalho. Segundo o último censo realizado pela Prefeitura, em fevereiro de 2016 a cidade contava com 623 pessoas vivendo nas ruas da cidade.

Para aguentar as noites e madrugadas geladas, os moradores em situação de rua admitem que fazem uso de drogas e de bebida alcoólica, uma vez que nem sempre as cobertas e cobertores que recebem de doações são suficientes para conter o frio. “A gente bebe e desmaia. Assim não sentimos nada. Acordamos com o pessoal da guarda nos chamando para deixar o local. E é aí que sentimos o frio para valer”, disse um jovem que não quis ser identificado e que dorme na lateral da Catedral Metropolitana de Campinas. “A coberta que a Prefeitura doa é muito fina. Ainda bem que tenho meu marido para dormir agarradinha com ele”, disse Shayenni Carla Venâncio, de 32 anos.

Prefeitura e entidades da cidade doam cobertas para amenizar os efeitos das noites ao relento: abrigo municipal trabalha abaixo da capacidade

De acordo com Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp, as baixas temperaturas em Campinas durante a madrugada seguem até amanhã. A previsão é de 9º graus e máxima de 26º. Já no sábado a temperatura volta a subir, com dias mais quentes.

Além da região do entorno da Catedral Metropolitana e da marquise dos Correios, na Avenida Francisco Glicério, outros pontos na área central de Campinas abrigam moradores em condições de rua. Nos bairros, as pessoas que vivem nas ruas costumam se abrigar em canteiros centrais de avenidas, em meio a árvores, praças ou em abrigos de ônibus.

Abrigo municipal

Apesar do frio intenso, poucos buscam o abrigo municipal — o Setor de Atendimento ao Migrante, Itinerante e Mendicante (Samim), que fica à Avenida Francisco Elisário, 240, no Bonfim. No Inverno, a recepção funciona até as 23h. De sexta para sábado, 101 pessoas procuraram o local. De sábado para domingo, 87. E de domingo para segunda-feira, 99. A capacidade do abrigo é para 130 pessoas, podendo se ampliada de acordo com a necessidade.

O Samim oferece pernoite aquecido, jantar, café da manhã e material de higiene pessoal. O albergue funciona desde maio na Operação Inverno, onde a abordagem social feita por uma ONG conveniada com a Prefeitura é ampliada em duas horas — de segunda a sexta, das 8h à meia-noite, e aos sábados, domingos e feriados, das 18h à meia-noite.

Ajuda

De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social, os moradores de rua que se recusam a ir ao Samim durante as abordagens recebem cobertores. Segundo a administração, para solicitar atendimento às pessoas em situação de rua que requerem cuidados nas noites mais frias basta ligar para o SOS Rua (19-99984-6496) até as 21h.

Defesa Civil alerta para a baixa umidade

Além das madrugadas frias, o tempo seco é outra preocupação. Campinas entrou em estado de atenção devido à umidade relativa do ar, que atingiu o índice de 27,8%, às 14h de ontem. O alerta foi dado pelo Departamento de Defesa Civil de Campinas, conforme dados da Estação Cepagri. É declarado estado de atenção quando a umidade relativa do ar fica entre 20% e 30%.

Nestas situações de alerta, a Defesa Civil recomenda evitar exercícios físicos ao ar livre entre 11h e 15h, umidificar o ambiente por meio de vaporizadores, toalhas molhadas, recipientes com água, sempre que possível permanecer em locais protegidos do sol ou em áreas vegetadas e consumir água. Segundo previsão do Cepagri, o clima seco deve persistir nos próximos dias, sem possibilidade de chuva até o final de semana.

Cata treco recolhe as cobertas deixadas para trás

Caminhão passa pelo Centro para recolher o que foi deixado pelos moradores em situação de rua na madrugada

De pé, em vigília, ao lado de um cobertor bem dobrado, está Nelson, de 46 anos — nome fictício de um morador em situação de rua, que não quis ser identificado. Ele cuida para que a coberta não seja recolhida pelo “temido” caminhão Cata Treco. O cobertor não é dele, mas tem orgulho de dizer que aquela peça é melhor do que as usadas em casas de famílias simples. “Com um cobertor deste, ninguém passa frio, pois é muito quente”, disse pedindo para que a repórter apalpasse a textura do material. “Não é bom? Por isso não podemos deixar que o levem”, falou.

Nelson e outras cerca de dez pessoas passam a noite sob a marquise do prédio da agência dos Correios, na Avenida Francisco Glicério, no centro de Campinas. Ele garante que, mesmo com o frio das últimas madrugadas, cada um se cobre como pode.

Além das cobertas que ganham da Prefeitura e de voluntários, os moradores em situação de rua usam papelões. Os que têm animais, dividem as cobertas com os bichos de estimação e assim um aquece ao outro. “Está muito frio nos últimos dias. Como tenho problemas com drogas, perco a memória e não consigo lembrar qual foi o ano mais frio que já enfrentei nas ruas”, disse Nelson, que afirma ser de Itu e estar em Campinas há dois anos.

“Tenho vontade de sair das ruas sim. Quero arranjar trabalho e morar com dignidade, mas tenho pouco estudo e já fui preso, várias vezes. Meu sonho é ganhar uma vaga em uma Casa de Passagem e com isso fazer um curso do ‘Mão Amiga'”, disse, referindo-se aos programas de moradia e capacitação da Prefeitura de Campinas.

A menos de 200 metros dali, nas laterais e em frente à Catedral Metropolitana de Campinas, outro grupo de moradores em situação de rua se abriga da forma que pode. Eles chegam ao local entre 19h e 20h e ficam por lá até as 6h, quando levantam para recolher e guardar os cobertores.

“Todo cobertor que ganhamos, usamos. Mesmo assim, com o frio dos últimos dias, nada esquenta. As madrugadas estão muito geladas”, disse a travesti Valquíria dos Santos, de 31 anos, há 11 anos nas ruas de Campinas.

Escrito por:

Alenita Ramirez

Fonte: RAC

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