A festa de um batizado, no bairro Paraíso, em Santo André, permitiu eternizar uma rara imagem dos transportes por fretamento na Grande São Paulo

ADAMO BAZANI

O ônibus consegue explicar como as cidades, estados e até mesmo países se desenvolveram, afinal, os transportes estão entre os setores que mais influenciam e sofrem influência dos diversos contextos econômicos, sociais, políticos, sanitários e até climáticos de diferentes épocas.

Mas o ônibus também ajuda a preservar e construir histórias pessoais, de família, e é personagem de momentos únicos.

Prova disso é a raríssima imagem que o Diário do Transporte recebeu de  Gildo Attilio Savignano Filho por meio do leitor Marcos Fernandes.

A ocasião era do batizado do irmão mais velho de Gildo, Adalberto Guedes Savignano, por volta de 1956. A família se reuniu para bater a foto em frente a uma “jardineira”, provavelmente GM, da Breda Turismo, uma das maiores companhias de fretamento e de ônibus rodoviários no Estado de São Paulo (hoje Breda Serviços). O local da foto foi em frente ao número 135, da Rua Ipojuca (hoje Rua Nossa Senhora de Fátima), quase no encontro com a Rua Juazeiro, no Bairro Paraíso, em Santo André, um dos bairros mais tradicionais da cidade e que até o início dos anos 2000 era marcado por casas antigas, construídas entre o final dos anos 1940 e dos anos 1970. No início dos anos 2000, a paisagem começou a mudar no bairro quando incorporadoras começaram a comprar estas casas, muitas de terrenos de 400 metros quadrados, 500 metros quadrados até 600 metros quadrados, demoli-las e transformá-las em prédios residenciais de quatro, oito ou 16 andares.

A casa ao fundo do veículo é do estilo do tradicional Bairro Paraíso, com varanda, terreno com mais de uma edificação e sempre com árvores, uma das características de boa parte das propriedades da época. Bem menos numerosas, algumas casas no bairro ainda resistem ao tempo com este padrão.

O bairro recebeu famílias de imigrantes atraídas pelo crescimento da industrialização. Italianos, espanhóis, portugueses estão entre os primeiros. Sua proximidade com a Vila Assunção, bairro que fica ao lado e já tinha um desenvolvimento maior, por beirar a Avenida Pereira Barreto (uma das principais ligações entre Santo André e São Bernardo do Campo) e por não ser muito distante da estação de trens no centro de Santo André, o Paraíso aos poucos se tornou bem procurado para novas residências nesta época. O serviço de ônibus urbanos entre o Paraíso e o centro de Santo André foi por décadas prestado pela Viação Padroeira do Brasil, cuja linha se estendia para o Valparaízo (avenida Atlântica), Rudge Ramos (São Bernardo do Campo) e, posteriormente, capital paulista, nas imediações da fábrica de brinquedos Trol. (Sto André/Bairro Paraíso – via Estação, via Vila Assunção) e (S.Paulo – Fáb.Trol, via Estação) era o que dizia o letreiro da linha na maior parte das décadas.

“Foto da Família do meu avô materno com seus filhos e filhas e genros, por ocasião do batizado do meu irmão mais velho, provavelmente a foto foi batida por meu pai que não aparece na foto. A data provável é do início de 1956 na rua Ipojuca Nº 135 ( hoje rua Nossa Senhora de Fátima) , no bairro Paraiso   em Santo André. A razão de o ônibus estar lá eu não sei  ao certo, mas provavelmente era alugado sim para a festa do batizado. Meus avós que são seus padrinhos de batismo são José Luis da Silva e Benedicta Guedes da Silva”, disse Gildo na mensagem encaminhada ao Diário do Transporte

A foto também remete à história da Breda. Atualmente, a empresa integra o Grupo Comporte, da família Constantino Oliveira, mas as origens da companhia remetem à longínqua década dos anos de 1930.

Luiz Breda era vendedor de ônibus importado da Volvo em 1938. Em 1939, entrou como acionista da Auto Viação São Paulo-Santos, que, nos anos 1940 se tornou parte da Viação Cometa, esta, por sua vez, que se originou da Auto Viação Jabaquara.

Em 1938, Ítalo Breda foi trabalhar com o pai no negócio de transportes.  Logo depois, com apenas 22 anos, tinha 5% de participação na Auto Viação São Paulo-Santos.

Ítalo foi crescendo na Viação Cometa e se desenvolvendo com a companhia. Ele foi um dos responsáveis por importar para a Cometa, em 1948, mais de 30 unidades da fabricante Twin Coach. O modelo foi um avanço para a época.

Paralelamente ao seu trabalho na Cometa, Ítalo Breda estudava economia no Dante Alighieri, em São Paulo, e, com ônibus próprios, transportava alunos da instituição de ensino.

O negócio crescia e, na década dos anos 1950, Ítalo decide deixar a Viação Cometa e funda a Breda.

Em 1955, com o crescimento da indústria automotiva no ABC Paulista, Ítalo consegue um grande impulso para a sua empresa. Sua frota passa de 30 ônibus para 100. Com isso foi possível assumir o transporte de funcionários da empresa Volkswagen e de outras grandes indústrias do ramo, segundo a página de memória da própria Breda.

A indústria automotiva nos anos 1950/1960 e, a de autopeças, nos anos 1960/1970, no ABC Paulista, abriram oportunidades para diversos outros ramos de atuação, entre os quais, os ônibus de fretamento. Foi neste contexto que surgiram outras tradicionais empresas de fretados na região, como Bozzato, Planetatur, Galo de Ouro, Santa Maria, Bonini, e tantas outras.

Em 1965, dez anos depois, a Breda tinha 300 veículos e já operava também rotas regulares como entre São Paulo-Itanhaém- Peruíbe.

Em 1967, a Breda comprou os confortáveis Flxible VL (Vista Liner) 100, importados pela empresa Expresso Brasileiro Viação Ltda, em 1956.

Os veículos então foram pintados nas cores da Breda, azul e vermelho, mas mantinham o fundo de tom alumínio, preservando o requinte especial da época da Expresso Brasileiro, que adquiriu os veículos para competir com a Cometa na rota Rio-São Paulo. Desde 1954, a Cometa usava os norte-americanos GM-PD 4104, os Choachs, chamado pela empesa de “Morubixaba”. Aliás, foram estes ônibus que inspiraram o projeto dos famosos “Dinossauros” da Cometa.

O apelido Diplomata que era usado pela Expresso Brasileiro passou a ser Bandeirante, algo de São Paulo mesmo.

Os ônibus faziam serviços que ligavam os aeroportos de Congonhas, na capital paulista, e o de Viracopos, em Campinas, no interior de São Paulo.

Relembre matéria em:

https://diariodotransporte.com.br/2016/10/23/historia-os-flxible-tambem-brilharam-na-breda-e-na-telonas-de-diplomata-para-bandeirante-ate-ser-estrela-de-cinema/

Ufa! Quanta história em uma foto só hein. Da família do Gildo, da arquitetura e da mudança imobiliária do bairro Paraíso, das empresas de ônibus tradicionais de fretamento e de linhas rodoviárias, do empreendedorismo de Ítalo Breda, da industrialização do ABC, da linha da Padroeira entre Santo André, São Bernado do Campo  São Paulo; e com certeza, tem muito mais.

O ônibus com certeza é um coletivo de histórias.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Fonte: Diario do Transporte

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