Exposed Americana

Movimento #ExposedAmericana teve 24 mil comentários associados e dominou redes sociais; psicóloga ressalta importância de fazer denúncia oficial

Por George Aravanis

03 jun 2020 às 08:17 • Última atualização 03 jun 2020 às 15:44

A DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) de Americana tenta identificar vítimas de abusos sexuais relatados no Twitter desde segunda-feira (1º), segundo a delegada Regina Castilho Cunha. O Conselho Tutelar se reúne hoje e também vai discutir o caso.

Delegacia de Defesa da Mulher de Americana: polícia trabalha na identificação das vítimas – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

Desde anteontem, várias meninas contaram episódios, pelas redes sociais, de abusos e assédio que dizem ter sofrido. Só na segunda-feira, o número de comentários associados ao tema, com a #ExposedAmericana, ultrapassou os 24 mil.

Muitos posts são de apoio às garotas que narraram os supostos crimes, e outros, relatos de casos de estupro ou assédio. Algumas garotas expuseram os casos anonimamente e outras revelaram abertamente a situação.

Movimentos semelhantes haviam surgido em outras cidades do Estado e do País nos últimos dias.

Relatos

Beatriz (nome fictício) foi uma das que compartilharam sua história. Prestes a completar 17 anos, ela diz que tinha 6 quando um marido da tia abusou dela. A menina conta que desenvolveu TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), depressão e teve pesadelos.

“Hoje em dia tomo remédio pra ajudar. Às vezes tenho crises sobre isso, mas eu sempre me escondo e choro sozinha. Às vezes parece que vai acontecer tudo de novo”, contou a adolescente ao LIBERAL.

Um dos tweets de apoio visa mostrar que as vítimas podem contar com apoio de outras mulheres nas denúncias – Foto: Reprodução

Na maioria dos casos, as meninas dizem que as agressões vieram de gente próxima. Uma garota contou que foi estuprada pelo namorado na própria casa, onde o rapaz forçou o sexo depois de ouvir não. Outra narrou que foi abusada por um primo aos 7 anos.

Mais uma disse que, quando tinha de 13 para 14 anos, foi obrigada a fazer sexo oral com um menino com quem estava ficando. Muitas meninas relataram casos de garotos que insistiram em tocar em suas partes íntimas mesmo depois de elas dizerem não.

A criadora de um dos perfis que deram início aos relatos de casos de abusos disse ao LIBERAL que tomou a atitude ao ver o desespero de conhecidas. “Vi na página uma saída para se expressarem”. A garota, de 16 anos, passou a sofrer ameaças e inclusive apagou posts que continham nomes.

Professores foram citados nas denúncias. A Secretaria de Educação afirmou que não tem conhecimento de denúncia formal. “Caso alguma acusação seja feita devidamente às autoridades, ela será apurada pela Pasta”, informou, por meio da assessoria de imprensa.

Alívio em denunciar

Caroline Cruz, psicóloga que atende vítimas de vários tipos de violência, inclusive sexual, afirma que já escutou mulheres que se sentiram aliviadas após tornar público um caso de abuso, mas conta que há outras que se arrependeram de ver a própria vida exposta e, inclusive, sofreram retaliações. “É sempre caso a caso.”

Caroline diz que percebeu a criação de uma identidade grupal por meio do movimento, o que gera uma rede de apoio, já que a vítima percebe que há outras pessoas com o mesmo problema.

A psicóloga, porém, ressaltou que é fundamental fazer a denúncia oficial, porque só a exposição não faz justiça.

Lea Amabile, vice-presidente do Conselho da Mulher de Americana, diz que o órgão se colocou à disposição do movimento para receber e encaminhar denúncias e para prestar apoio psicológico e jurídico a quem precisar. O Conselho pode ser contatado pelo telefone (19) 3475-8700 ou pelo e-mail e-mail cmdm.cmi@americana.sp.gov.br. O telefone da DDM é (19) 3462-1079.

Segundo Lea, seria importante estimular criação de coletivos feministas em lugares como escolas e faculdades. Como isso não existe, é nas redes sociais que as meninas encontram esse espaço, segundo a vice-presidente do Conselho.

Beatriz, citada no início do texto, diz que tornar público o abuso lhe fez bem. “Eu não falava com ninguém sobre isso, ninguém perguntava. Eu não conseguia colocar pra fora isso, e falar me deixou leve e eu pude compartilhar e ver muitas histórias.”

Ela diz que já está conversando com uma advogada e que vai dar queixa do agressor. A mãe afirma que apoia a filha. “A gente não tinha mais comentado nada, e ela veio falar ‘contei tudo sim, porque ele estragou minha vida’”, afirmou a mulher ao LIBERAL.

”Eu e meu ex-marido, a gente pensava em matar ele quando ela contou. A gente entrou em desespero, mas ele já não estava mais morando em Americana.”

Podcast Além da Capa
O novo coronavírus representa um desafio para a estrutura de saúde de Americana, assim como outros municípios da RPT (Região do Polo Têxtil), mas não é o primeiro a ser encarado. H1N1, dengue, malária, febre maculosa. Outras doenças também modificaram rotinas, exigiram cuidados além do trivial – ainda que não tenha havido quarentena, como agora – e servem de experiência para traçar paralelos com o atual cenário. Nesse episódio, o editor Bruno Moreira conversa com a repórter Marina Zanaki, que assina uma série de reportagens sobre outras epidemias em Americana.

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